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terça-feira, 29 de novembro de 2011

SOFRIMENTO, DOR E MORTE: SITUAÇÕES EXTREMAS, CORAÇÕES ESPERANÇOSOS

por Carlos Macedo Romeiro e José Ricardo Mole


Introduzindo, pode-se dizer que a vida humana é cheia de mistérios. Apesar da sua finitude é rica de surpresas. Nem todas as surpresas, porém, são agradáveis. Pode aparecer a dor, o sofrimento, a doença e a morte. São situações, às vezes, extremas que a humanidade tem que enfrentar.

A forma como as pessoas enfrentam estas situações varia muito de acordo com a cultura e o tempo em que vivem. Encaram o sofrimento de diversas maneiras. Algumas pessoas reagem de forma mais tranquila. Conseguem assimilar a situação e administrar satisfatória e serenamente as mais diversas tribulações. Outras pessoas, por sua vez, se revoltam contra Deus e se enxergam como castigadas. O povo do Primeiro Testamento, por exemplo, costumava entender o sofrimento e, sobretudo, a doença, como castigo de Deus.

Foi sendo criada no decorrer da história uma mentalidade um tanto quanto acomodada em relação ao sofrimento, à dor e à morte. Deus assim desejou e pronto! Não há mais nada a fazer. Foi Deus que quis. É muito comum ainda hoje, diante do sofrimento e, sobretudo, da morte, ouvir a expressão: “foi Deus que levou, então é preciso aceitar”. Afinal, chegou a hora. Desta forma, pode-se até imaginar que Deus tem um livro e nele está escrito tudo sobre o que vai acontecer com cada indivíduo no mundo. Afirmou-se no início do parágrafo que esta é uma visão acomodada em relação ao sofrimento e à morte. É acomodada porque isenta o ser humano de culpa. Esquece-se da finitude humana e coloca-se a culpa em Deus.

É importante distinguir que dor se refere às reações físico-químicas que ocorrem no organismo humano e animal. Têm a função de avisar que algo está errado no funcionamento do corpo. Essa dor gera, no ser humano, o sofrimento. Este, por sua vez, é uma situação psicológica de incômodo que gera ansiedade e angústia. A tendência é acabar com a dor o mais rápido possível para sanar o sofrimento.

O interessante aqui é fazer notar que à dor, ao sofrimento e à morte, sentidos variados são aplicados. Podem ser interpretados como autoproteção ou até uma forma de autoafirmação. Podem ser utilizados como fonte de prazer, no caso do sadomasoquismo (Cf. ROSSI, 2011, p.1). Outras pessoas podem dar um sentido totalmente positivo para a dor e para o sofrimento. Aprendem com o sofrimento. Crescem com ele. Utilizam dele para dar sentido às próprias vidas. O psicanalista austríaco Viktor Frankl criou a Logo Terapia, isto é, a terapia do sentido. Aqui é interessante citar o termo resiliência. É um conceito da psicologia que trata do indivíduo capaz de enfrentar a mais forte pressão e superar os mais difíceis obstáculos sem entrar num surto psicológico. Pode também ser entendido como a capacidade que a pessoa tem de tomar decisões rápidas em situações extremas.

Os termos acima trabalhados podem ajudar a compreender numa visão cristianizada a questão da dor, da morte e do sofrimento.  Com a presença de Jesus no mundo, com a sua pregação e o seu testemunho, um novo rosto de Deus foi sendo percebido. O Deus da alegria, da bondade e do amor. Deus não criou o ser humano para sofrer. Nem para ser infeliz. Deus não é sádico. Ele é bondoso. Criou o ser humano com o livre arbítrio. Foi justamente essa liberdade que fez com que tantas coisas ruins fossem criadas. Delas surgem a dor e o sofrimento.

As atitudes de Jesus, mais do que simplesmente realizar a cura física, sanando a dor e o sofrimento, revelam um sentido muito mais profundo. Têm o objetivo de libertar integralmente a pessoa para que, pela fé, possa aderir ao projeto de Jesus. Visa à cura total, ou seja, à transformação do coração.

Jesus também sofreu. Sendo profundamente homem, passou pela dor e pelo sofrimento. Enfrentou a morte. Ficou morte três dias. Isto é, morreu mesmo! Nesta perspectiva, o sofrimento do cristão está em profunda comunhão com o Cristo Sofredor e o serviço aos doentes e aos sofredores remetem aos sofrimentos do próprio Cristo (Cf. Mt 25, 35-46).

            Concluindo, é importante compreender que a ótica da esperança deve estar profundamente presente na vida dos cristãos. Tudo que Jesus disse e fez foi vislumbrando o horizonte da esperança. Este horizonte é o da Ressurreição, da conquista do Reino definitivo. O fato de Jesus ter ressuscitado é a certeza que a pessoa humana tem que também irá ressuscitar. Mesmo a cruz é sinal de grande esperança! A morte de Jesus abriu um horizonte pelo qual vale a pena passar pelas tribulações da vida. Mesmo que seja o sofrimento, a dor e a morte. A resiliência do cristão é Jesus. Ele dá a força para superar situações extremas sem cair. Ele é o sentido que se deve dar a tudo que acontece na vida. 

segunda-feira, 6 de junho de 2011

terça-feira, 31 de maio de 2011

FESTA, SINÔNIMO DE ALEGRIA E COMUNHÃO

por José Ricardo Mole

Chegou o mês de junho. Neste mês muitas festas acontecem. Celebramos Santo Antônio, São Pedro, São Paulo e São João Batista. É tradição acontecerem as festas juninas. Muita música, dança e alegria esquentam a temperatura das nossas vidas. Além disto, o friozinho próprio deste período do ano fortalece o calor humano e ajuda a saborear as comidas típicas.
É importante, porém, tomar consciência de dois aspectos importantes. O primeiro deles é que quando celebramos a festa de um santo, não estamos o exaltando ou adorando, como se fosse um deus. Estamos valorizando uma pessoa profundamente humana como nós que, por causa de Jesus Cristo, tornou-se santo. No atual paradigma, os santos são, mais do que intercessores diante de Deus, modelos de seguidores de Jesus.
O segundo aspecto do qual devemos nos conscientizar é a importância da festa para a pessoa humana. Somos seres de relações. Não fomos criados para viver sozinhos. As festas deste mês são grandes oportunidades para criarmos comunhão com os nossos irmãos e nossas irmãs.
Somos, portanto, chamados a viver em comunidade. É na vivência comunitária da partilha e da alegria que descobrimos verdadeiramente a nossa vocação. Partilhemos, portanto, as nossas vidas e vivamos a experiência da festa como sinônimo de alegria e de comunhão!

quinta-feira, 28 de abril de 2011

COMO MARIA, "DE OLHOS FIXOS EM JESUS..."

por José Ricardo Mole




É muito comum no mês de maio acontecer várias homenagens a Maria, mãe de Jesus. Tradicionalmente, este mês é o que chamamos de mariano. Nós salesianos somos devotos de Maria Auxiliadora dos Cristãos. No dia 24 de maio celebramos a sua festa.
Falar de Maria, porém, só tem sentido se falarmos de Jesus de Nazaré. Nascido de mulher simples, veio ao mundo assumir a nossa humanidade, valorizando, desta forma, o ser humano. Por outro lado, o sim de Maria mostra-nos uma humanidade de coração aberto para acolher o Deus-conosco. Ela tornou-se, por causa de Jesus, uma cristã exemplar. Primeiramente, ouviu a voz de Deus, acolheu a Sua Palavra e respondeu ao Seu chamado. Foi totalmente agraciada por Deus e deixou-se envolver totalmente pelo Seu mistério. Como mãe do Senhor, ela não perdeu o foco. Teve sempre o coração e “os olhos fixos em Jesus” (Cf. Hb 12,2), seu amado Filho.
Como vocacionados, neste mês mariano somos convidados a, como fez Maria, ouvir a voz de Deus, acolher a Sua Palavra e responder ao Seu chamado. Desta forma, fazendo “tudo o que Jesus nos disser” (Cf. Jo 2,5) seremos  pessoas totalmente realizadas e felizes no serviço aos nossos irmãos, especialmente aos mais necessitados.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

VALORIZAR O QUE É ESSENCIAL

por José Ricardo Mole

Novo ano! Novas expectativas! Novos projetos!
Início de ano é sempre tempo de fazer propósitos. É um momento propício para planejar a nossa vida. Quem não se planeja anda sem rumo e nunca sabe aonde chegar. Quando temos claro aquilo que queremos, lutamos até o fim para conseguir alcançar os nossos objetivos. É sempre bom tomarmos consciência do primeiro chamado que Deus nos faz: o chamado à vida. Ele criou-nos por amor e nos presenteou com o mundo para dele cuidarmos. Acontece que, na contemporaneidade, o frenesi diário impede-nos, às vezes, de parar e pensar na vida. Deixa-nos como que cegos diante das maravilhas de Deus. O tempo escorre pelas mãos e deixamos de lado o essencial. Por isto, é muito importante neste início de ano, parar diante da vida, diante de tantos sonhos e projetos e perceber o essencial: a consciência de que Deus é nosso Pai e que nos chama a viver a vida com alegria e entusiasmo! Depois desta tomada de consciência teremos mais maturidade para construir o nosso projeto de vida para o ano e faremos, com certeza, a vontade de Deus.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

CRISTANDADE MEDIEVAL E PROCESSO ELEITORAL DO BRASIL EM 2010: UMA RELAÇÃO POSSÍVEL

por José Ricardo Mole


Quando se fala em cristandade pensa-se logo na união entre Igreja e Estado, sobretudo, na Idade Média. Porém, é muito mais do que isso. Dando continuidade a cristandade antiga, quando Constantino fez do cristianismo a religião oficial, a cristandade Medieval procurava sacralizar todas as coisas. Das relações sociais às questões econômicas e na forma de comportar das pessoas, tudo tinha intervenção da Igreja Católica. Todas as instituições estavam, de certa forma, ligadas à Igreja e ao Sagrado.
Havia uma ideologia religiosa por trás de tudo. A ordem do cosmo era gerida pelo cristianismo. Na esperança de uma salvação futura o ser humano medieval assimilava profundamente as ideologias da Igreja e fazia de tudo para cumprir os seus mandamentos. O discurso do medo era utilizado para controlar as pessoas. Através dele as autoridades eclesiásticas e políticas – se é que havia separação verdadeira – conseguiam ordenar o mundo do seu jeito.
A mentalidade das pessoas também era profundamente influenciada pela cristandade. Era reforçada a ideia de que Deus poderá sempre intervir e modificar a atual situação. “Tudo podia ser explicado pelo além”, pelo sobrenatural.
Grandes discussões foram elaboradas a fim de reforçar o poder do Papa sobre o Estado ou do Imperador sobre a Igreja. Várias teorias surgiram. Da dualidade de poder, onde o Papa cuida dos bens espirituais e o Imperador dos bens temporais, à superioridade da autoridade pontifícia, justificada pela sua ligação direta a Deus.
Falando da cristandade medieval e dos seus discursos é possível falar dos seus resquícios ainda hoje, no Brasil, sobretudo, na batalha eleitoral deste ano para a presidência da república. De campanha a campanha algumas coisas foram aparecendo e alguns discursos ficaram mais claros.
Entre os candidatos Dilma Rousseff e José Serra um tema de destaque na mídia foi o do aborto. Foi destaque não porque ambos os candidatos falaram muito no mesmo – parece que até evitaram começar o assunto – mas, porque a Igreja Católica, através de alguns de seus membros, inclusive, bispos, mediados pelas TV's católicas tomaram partido político e declararam ser contra a candidata Dilma Rousseff e ainda pediram aos eleitores, verdadeiramente católicos, que não votassem nela. O motivo era o seu discurso a favor do aborto. Discurso, aliás, bastante discreto, pelo menos nesta última eleição. O que tirou toda a discrição do discurso dos presidenciáveis em relação ao aborto foi a própria Igreja.
Nesse caso, acontece um grave problema: a manipulação de consciência. Da mesma forma como acontecia no período da cristandade medieval, onde as consciências eram controladas pelo cristianismo imperial, aconteceu no Brasil, em 2010, durante o processo eleitoral para a eleição do mais alto cargo do executivo, o de Presidente da República.
Mesmo diante de todo o processo de secularização que o mundo atual tem vivido, a Igreja Católica ainda tem bastante influência na consciência das pessoas. Ela é formadora de consciência e de opinião. Corre o risco, às vezes, de se aproveitar disso para manipular as pessoas de acordo com os seus interesses.
O papel da Igreja, enquanto formadora de consciência política, não é indicar esse ou aquele candidato, mas, sim, ajudar as pessoas a pensarem em quem votar, julgando ser melhor, sobretudo, para o bem dos mais desfavorecidos. Não foi isso o demonstrado por alguns membros da hierarquia quando pediram explicitamente para que os católicos não votassem num candidato específico. É uma cristandade do tempo atual. Pode ser diferente da Idade Média, mas, no fundo, pretende a mesma coisa: garantir a hegemonia da Igreja Romana e reforçar a sua ideologia. A manipulação de consciência é algo muito sério. As pessoas têm o direito e a liberdade de decidir autonomamente. Tirar esse direito, manipulando as suas consciências, é um pecado mortal.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

DOM BOSCO COMO MODELO DE AGENTE VOCACIONAL

video


por José Ricardo Mole

INTRODUÇÃO


No texto nº 1 da série “Conversando sobre a Pastoral Vocacional” refletimos sobre a missão do agente vocacional, enxergando Jesus Cristo como o agente vocacional por excelência. Propomos agora continuar a reflexão, porém, dessa vez, numa perspectiva salesiana, apresentando Dom Bosco como modelo de agente vocacional.
Levaremos em consideração aspectos práticos da vida de Dom Bosco e o seu método educativo para aprender algumas atitudes que podem nos inspirar como agentes vocacionais. Nosso fundador com certeza muito tem a nos ensinar nessa importante missão.
Consideraremos, obviamente, a época em que Dom Bosco viveu e o seu contexto e faremos uma releitura para, assim, aproveitarmos bem o legado que nos foi deixado e que queremos levar adiante. Escolhemos cinco fatos da vida do santo, alguns acontecimentos ainda no período da sua infância e adolescência e outros já na sua vida adulta como padre diocesano e fundador da congregação salesiana. Obviamente, não pretendemos aqui traçar o seu perfil biográfico, mas, perceber elementos importantes da sua vida que nos inspirem atitudes de agentes vocacionais. Muitos outros fatos poderiam ter sido tomados como exemplo e podem, ainda, ser aprofundados em outro momento.


1.      “Já não tens pai”: a paternidade como atitude fundamental do agente vocacional

Nas Memórias do Oratório de São Francisco de Sales (MO) Dom Bosco relata a trágica experiência de ter perdido o pai tão cedo e as grandes dificuldades que sua mãe passou para superar a crise econômica (Cf. MO, p.25).
Essa experiência de orfandade paterna vivida por ele influenciou profundamente a sua forma de lidar com os meninos depois de ordenado padre. Quis ser o pai que muitos não mais possuíam. Quis ser a presença marcante na vida dos seus meninos.
A paternidade que Dom Bosco oferecia para os seus jovens era, sobretudo, espiritual (Cf. LEAL, 2010, p.19). Desejava refletir a paternidade divina. Principalmente através da confissão e do acompanhamento espiritual ajudava os seus jovens a ter um encontro profundo com Deus e a discernir a Sua vontade. Traçava um programa espiritual: estar sempre alegres, cumprir com os deveres e fazer o bem a todos e o mal a ninguém. Formava também discípulos. Tinha uma proposta de vida a oferecer-lhes. Ensinava com a sua vida e com o seu testemunho, transmitido através de grande proximidade. Ganhava a confiança dos seus “filhos”. Depois buscava ajudá-los a discernir a própria vocação. Muitos quiseram ficar com ele. Outros seguiram rumos diferentes, mas construíram um projeto de vida. A proposta vocacional que Dom Bosco fazia aos seus meninos vinha depois de um longo período de convivência e de conhecimento mútuo (Cf. LEAL, 2010, p.15.). Dom Bosco tinha a paciência de deixá-los bem à vontade e de esperar que eles próprios se deixassem conhecer. Para isso foi preciso oferecer-lhes muito carinho e atenção com altas doses de dedicação e amizade.
Já nesse ponto podemos perceber alguns traços do agente vocacional por inspiração de Dom Bosco. O agente vocacional atua com gestos de paternidade, ou seja, sabe acolher e consegue fazer com que o acompanhado sinta-se seguro na sua companhia. Essa segurança é fruto do seu equilíbrio e sensibilidade. É capaz de ter paciência, de ouvir os vocacionados e, assim, conhecer a sua realidade. No entanto, faz com que o vocacionado perceba que não pode ficar parado por muito tempo. Chega um momento que precisa dar uma direção à própria história. Necessita construir um projeto de vida. Aí entra o agente vocacional que o ajudará nas decisões, fazendo uma proposta concreta e mostrando várias possibilidades.
É necessário ressaltar aqui a importância dos grupos vocacionais. São grupos onde são trabalhados vários aspectos da vocação, inclusive, as vocações específicas. Não basta despertar no(a) jovem o desejo de discernir a vontade de Deus e de construir um projeto de vida. É necessário fazer como Dom Bosco: apresentar propostas que podem ser abraçadas e assumidas concretamente. Diante dessas propostas, os vocacionados se sentirão amparados e seguros para tomarem suas decisões de forma mais tranquila e conhecendo as diversas possibilidades que têm para o seguimento de Jesus.
Em suma, o agente vocacional é sensível e se faz próximo dos vocacionados. A sua presença, como a de Dom Bosco, é simpática e afetuosa (Cf. RODRIGUEZ, 2000, p. 150). Tem atitudes paternas de acolhida e de paciência. Oferece segurança e um “chão firme”, onde os acompanhados podem pisar sem medo. É amigo e, ao mesmo tempo, educador. Tem paciência e espera a abertura dos(as) jovens para conhecer a sua realidade. Demonstra, por sua vez, carinho e confiança. Por fim, é capaz de fazer propostas concretas e de ajudar na escolha do caminho a ser seguido segundo a vontade de Deus, o Pai maior.


2.      Um sonho e uma realidade: com paciência e mansidão acompanhar para transformar o coração dos jovens

 Dom Bosco foi um sonhador. Os sonhos fizeram parte da sua vida e da sua vocação. Queremos aqui utilizar como exemplo um sonho que Joãozinho teve na infância. Nele aparecem aspectos interessantes a serem analisados na perspectiva do agente vocacional.
Aos nove anos de idade o menino João Bosco teve um sonho que foi guardado por toda a sua vida e que inspirou o seu método educativo, o conhecido “sonho dos nove anos”. Segundo o próprio santo relata nas MO, ele estava num lugar próximo à sua casa quando avistou um grande número de meninos a brincar, a se divertir e a blasfemar. Quando ouviu as blasfêmias foi logo com socos e pontapés tentar corrigi-los. Nesse momento apareceu um homem de boa aparência que o alertou que não era com pancadas que iria conseguir corrigir aqueles meninos. O homem lhe ensinou que a única forma de educar aqueles que blasfemavam era com muito carinho e mansidão. Na continuação do relato, Dom Bosco explica que ficou confuso, pois não conseguia saber quem era o homem que lhe falava. Ao indagar como conseguiria, com sua ignorância, instruir aqueles meninos, obteve uma resposta que foi a sua força durante toda a vida: “Eu te darei a mestra, sob cuja orientação poderás tornar-te sábio, e sem a qual toda sabedoria se converte em estultice”. (MO, 29). Nesse instante aparece uma senhora que o segura pela mão e mostra os meninos que, logo após essa revelação, não mais aparentavam ser gente, mas tinham se tornado animais ferozes.  A mulher conduziu Joãozinho até eles e lhe mostrou que aquelas feras acabaram de tornar-se mansos cordeiros. A senhora lhe ensinou que deveria fazer o mesmo durante toda a vida: transformar os animais ferozes em mansos cordeiros. Isso para João não era claro. Ele era apenas uma criança. Por isso, continuou insistindo com a mulher que o esclarecesse melhor. Então ela disse a frase que ficou famosa: “Com o tempo tudo compreenderás.” (Cf. MO, 30).
Esse sonho foi decisivo na vida de Dom Bosco e, consequentemente, muito importante para nós. É, sem sombra de dúvidas, um esboço claríssimo da pedagogia salesiana. Podemos tirar desse sonho algumas atitudes que podem também nos ajudar como agentes vocacionais.
Os meninos estavam blasfemando, ou seja, os vocacionados estavam perdidos e desanimados em relação à vida.  Não estavam satisfeitos com nada, por isso blasfemavam. Dom Bosco age impulsivamente para tentar mudar os corações deles. Foi primeiramente com violência. No entanto, o homem intervém. É o próprio Jesus. Impediu-lhe de agir com violência e ainda lhe ensinou a cultivar o carinho e a mansidão no trato com os meninos.
Acontece muitas vezes de estarem os vocacionados sem rumo devido às dúvidas próprias da idade ou suscitadas pelo ambiente em que vivem e pelas circunstâncias da vida. Em outros momentos, tendem a querer apressar a própria decisão afirmando que têm certeza da própria vocação e que já podem seguir o seu caminho mesmo sem a ajuda do acompanhante. Nesses casos, a paciência e a mansidão são fundamentais. O agir com mansidão faz com que o agente vocacional ganhe a confiança do vocacionado, pois demonstra respeito e, sobretudo, carinho.
Por outro lado, o aspecto mais fascinante desse sonho e que em muito se aproxima do objetivo do trabalho do agente vocacional é a possibilidade de contribuir com a mudança de vida, com a conversão do coração daquele que é acompanhado.
Se voltarmos as nossas atenções para a cena em que os meninos não mais são vistos como pessoas humanas, mas como animais ferozes, podemos perceber os vocacionados como matérias-primas para uma obra de arte. Já trazem consigo várias experiências tanto positivas como negativas. Já tiveram a oportunidade de fazer algumas opções, mas talvez nunca conseguiram parar para analisar o verdadeiro sentido das suas vidas. Sempre fizeram tudo sem pensar. Vivem, às vezes, uma existência vazia, sem perspectivas.
As feras se transformaram em mansos cordeirinhos que, felizes, “saltitando e balindo, corriam ao redor daquele homem e daquela senhora, como a fazer-lhes festa”. (MO, 30). As atitudes de paciência e mansidão com as quais Dom Bosco fora convidado a agir transformou o coração daqueles meninos.
O agente vocacional quando se aproxima do vocacionado e percebe suas dúvidas, seus medos e seus anseios e se faz próximo, vai valorizando elementos da vida dos próprios vocacionados que servirão para ajudá-los a tomar consciência do chamado de Deus. O tornarem-se “mansos cordeirinhos” não significa, no atual paradigma, ser submissos ou passivos em relação às outras pessoas e, sim, mudar de atitude em relação à própria vida. Significa estar de coração aberto à bondade e ao amor.  
A mudança de vida é atitude fundamental para um verdadeiro discernimento. O agente vocacional deve contribuir para essa mudança. Deve ajudar os jovens a confrontarem-se consigo próprios e a perceberem atitudes que os distanciam de Deus e, consequentemente, da possibilidade de lhe servirem verdadeiramente. Nem sempre essa tomada de consciência é rápida, pois, exige, às vezes, grande esforço por parte do vocacionado. O agente vocacional, por sua vez, deve continuar caminhando lado a lado com o seu acompanhado e o ajudar a se conhecer melhor para discernir bem a vontade de Deus para a sua vida.


3.      A Sociedade da Alegria: um grupo vocacional do jeito de Dom Bosco

Na sua adolescência, depois de muitas dificuldades para conseguir estudar e, mesmo já atrasado em idade em relação à série que cursava, João Bosco aproveitou dos seus dotes inquestionáveis para se tornar um aluno brilhante e ajudar os outros.
Desde criança já demonstrava grande zelo apostólico e uma facilidade impressionante para atrair os seus colegas para atividades saudáveis, como brincadeiras e atos de piedade.
João Bosco fora contratado por dona Lúcia para ajudar nos estudos o seu filho, João Batista da Matta. Esse era um menino pouco aplicado nos estudos e tinha sérias dificuldades para assimilar o conteúdo ensinado pelos professores. Problema, aliás, que passava muito longe do menino Bosco. Tão grande fora a dedicação do jovem João Bosco nesse trabalho, assumido como uma missão, que obteve um resultado surpreendente e, por causa disso, ganhou grande admiração da dona Lucia, o que lhe rendia algum dinheirinho para comprar o básico necessário para viver (Cf. MO, 55). Outros colegas o procuravam para que também lhes ajudassem nos estudos. Como esses meninos eram negligentes na escola e não tinham muito boa fama com os professores, João Bosco foi proibido de ajudá-los. Os mestres afirmavam que a sua ajuda fazia com que eles se acomodassem e ficassem ainda menos dedicados. A única forma de ajudá-los sem desagradar aos professores era apenas lhes tirando as dúvidas, fazendo-os capazes de prepararem sozinhos as tarefas. Essa sua boa vontade e a capacidade de atender a todos com benevolência o fez muito querido pela maioria dos colegas.
Durante a semana eles se reuniam na casa de alguns deles para brincar, contar algumas histórias edificantes, para tirar as dúvidas e fazer as tarefas. Depois, mesmo sem necessidade, continuavam a reunir-se. Essa reunião foi chamada de Sociedade da Alegria (Cf. MO, p.56).
Não sabemos, de fato, qual rumo foi tomado pelos membros da Sociedade da Alegria. Sabemos, porém, que esse grupo demonstra uma grande capacidade de Dom Bosco de agregar pessoas para fazer o bem. Começou de forma discreta ajudando o pequeno João Batista. Ficou conhecido por ter feito um verdadeiro milagre na vida desse seu acompanhado. Ajudou a muitos outros meninos a gostarem de estudar e a buscarem ser pessoas melhores. Foi capaz de perceber a capacidade de cada um e de animá-los a desejarem melhorar de situação.
A Sociedade da Alegria possuía duas regras básicas “primeiro, evitar qualquer conversa ou ação que desdiga de um bom cristão; segundo, exatidão no cumprimento dos deveres escolares e religiosos”. (MO, p.56). É impressionante o relato onde Dom Bosco conta que “os alunos eram dóceis e respeitosos tanto na escola como em casa. E sucedia muitas vezes que em classes numerosíssimas todos eram aprovados no fim do ano para a classe superior”. (MO, p.59). É impressionante porque em relatos anteriores ao descrito acima, o santo fala da dificuldade que tinha com seus colegas, pois, com raras exceções, eram negligentes e indisciplinados. A Sociedade da Alegria transformou a vida deles e ajudou-os a serem pessoas melhores.
Eis uma das missões do agente vocacional: ajudar os vocacionados a crescerem e a se transformarem em pessoas melhores do que já são.
A Sociedade da Alegria pode ser vista na perspectiva de um grupo vocacional animado pelo seu agente, João Bosco. Mais do que um simples colega de escola, era uma referência positiva. Começou aceitando as dificuldades dos seus semelhantes. Esteve sensível a elas e quis intervir positivamente. Começou devagar. Foi se fazendo próximo e ganhando a confiança dos seus colegas.
O agente vocacional não obriga os vocacionados a aceitarem a sua ajuda. Primeiramente se faz próximo e procura conhecer aqueles a quem pretende acompanhar. Percebe, antes de qualquer coisa, os dons, os valores e as riquezas deles. Começa a tentar fazê-los tomar consciência dos seus dons e a aceitarem a si próprios como pessoas amadas por Deus. Seus dons foram presentes de Deus e não devem ficar guardados. Precisam ser colocados em prática.
Por outro lado, algumas limitações, sejam em nível psicológico ou social, podem prejudicar o autoconhecimento e gerar dificuldade na hora de se relacionarem com outros para partilharem os dons. Nesse momento, o agente vocacional, percebendo os limites e as dificuldades dos vocacionados, procura ajudá-los a tomar consciência desses aspectos que merecem atenção e um sério trabalho interior. Dessa forma, através de um acompanhamento mais personalizado, poderá motivá-los a trabalhar seus medos e angústias, possibilitando um autoconhecimento e um profundo crescimento pessoal. Pode ser que o agente vocacional não dê conta de ajudar nesse processo. Em alguns casos é necessária a intervenção de um profissional de psicologia. O agente, por sua vez, deve ser capaz de perceber a necessidade de sugerir ao vocacionado que procure uma ajuda especializada. Essa ajuda deve ser, no entanto, procurada por livre e espontânea vontade. É o vocacionado o protagonista do seu acompanhamento.
Talvez a indisciplina dos colegas de João Bosco, fator que muito os prejudicava na escola, era fruto de uma ”confusão” interior que impossibilitava uma maior capacidade de abertura e de diálogo com Deus, com eles próprios e com os outros. A indisciplina era a única forma de chamar a atenção para si. O jovem João Bosco foi sensível à situação deles e quis ajudá-los. Formou um grupo verdadeiramente vocacional, pois, ajudou-os a descobrirem seus dons e suas capacidades de crescimento. A partir dessa descoberta, todas as outras vão acontecendo com mais facilidade. O grupo é muito importante, afinal, somos pessoas sociáveis e conviver com outras pessoas que também estão buscando discernir a própria vocação nos anima, pois percebemos que não estamos sozinhos. Por isso, o acompanhamento vocacional é personalizado e individualizado, mas é também, comunitário. Jesus chamou individualmente cada um dos seus discípulos, mas os constituiu uma comunidade de servidores do Reino.
O agente vocacional é, portanto, aquele que consegue valorizar os dons dos vocacionados e as suas capacidades. Ajuda-os a tomar consciência disso. Amplia os seus horizontes e possibilita, com muito diálogo e compreensão, a aceitação das próprias limitações e dificuldades, contribuindo com o autoconhecimento. Mostra as várias possibilidades de escolha que podem fazer para colocar em prática os dons e para realizarem-se por completo como pessoas. É bom lembrar que quem deve decidir é o vocacionado. Ele só será capaz de fazer isso com maturidade quando souber dos seus dons, mas também, das suas limitações e perceber que o chamado de Deus é muito mais forte do que qualquer outra coisa e que só será profundamente feliz quando conseguir integrar-se e aceitar-se como pessoa.
A alegria é um aspecto fundamental no processo de discernimento vocacional. O nome Sociedade da Alegria mostra a importância dessa dimensão. Nas reuniões semanais que fazia com os seus colegas, João Bosco não abria mão do lazer. Promovia momentos de brincadeiras e de festa. Fazia do estudo e da oração momentos de constante alegria. O agente vocacional atua com alegria. Sente-se feliz por estar contribuindo com o seu acompanhado. Os grupos vocacionais também devem ser momentos de descontração. O clima de família é fundamental. Os temas trabalhados não podem ser transmitidos como que numa sala de aula. Os encontros precisam ser dinâmicos e alegres. Devem proporcionar um clima alegre e ao mesmo tempo, centrado e sério. O clima familiar gera confiança e confiança gera abertura, que por sua vez, possibilita bom discernimento. Podem ser organizados passeios, confraternizações, acampamentos e diversas outras atividades que são, sem dúvidas, formativas. Não se pode, porém, perder de vista a pessoa do vocacionado e a sua capacidade de ser totalmente disponível para servir a Deus. Somente não sabe ainda como fazer isso. Por isso, deseja ser acompanhado. Merece, portanto, todo o nosso respeito e carinho.


  1. Bartolomeu Garelli: através do diálogo e da bondade, ganhar a confiança dos vocacionados, conhecer a história deles e dar continuidade no processo de acompanhamento
No dia 8 de dezembro de 1841, Dom Bosco estava na sacristia preparando-se para celebrar a santa Missa. Era solenidade da Imaculada Conceição de Maria. Apareceu um rapazinho. Rapidamente o sacristão José Comotti o chamou para ajudar Dom Bosco na Missa. O rapazinho, bastante tímido, disse que não sabia ajudar. Imediatamente o sacristão se irritou com ele e o expulsou, batendo-lhe na cabeça com um espanador. O menino apavorado fugiu apressadamente. Dom Bosco percebeu o desespero dele e chamou atenção de Comotti por ter batido no menino e pediu que o trouxesse de volta. Quando o rapaz retornou, cheio de medo, o sacerdote carinhosamente o convidou para ficar na Missa e, em seguida, para conversar com ele. Ao terminar a Missa, Dom Bosco foi ao encontro do seu amigo. Esse jovem se chamava Bartolomeu Garelli. Provavelmente proveniente de alguma família bastante pobre, Garelli tinha ido a Turim pelo mesmo motivo de centenas de adolescentes: trabalhar nas fábricas. Como a cidade estava inchada por causa do êxodo rural, ele não conseguiu emprego e estava ali na igreja em busca de um pouco de pão e, quem sabe, de um lar. No diálogo com o jovem, Dom Bosco lhe fez algumas perguntas e logo descobriu que era órfão de pai e mãe e que era analfabeto. Descobriu também que ele não fizera ainda a primeira comunhão. Nas Memórias Biográficas, o biógrafo Lemoyne, acrescenta o seguinte no diálogo:
“- Sabes cantar?
- Não
- Sabes assobiar?
E então o menino sorriu.” (Cf. MB II, p. 76).

Se, de fato, Dom Bosco perguntou para o jovem Garelli se ele sabia assobiar nós não sabemos se é verdade ou se foi um acréscimo do biógrafo. Sabemos, porém, como escreve o próprio santo nas “Memórias do Oratório São Francisco de Sales”, que Bartolomeu Garelli passou a frequentar as missas dominicais e, logo após, recebia aulas do catecismo. Na verdade o primeiro encontro já foi uma aula de catecismo.
No domingo seguinte outros meninos se juntaram à Garelli (Cf. MO, p. 125). E, assim, começou o oratório de Dom Bosco: com um simples e cordial diálogo e com uma aula de catecismo.
A atitude do sacristão para com Bartolomeu Garelli era um tanto quanto comum naquele tempo. Os adolescentes, por serem muito numerosos na cidade devido ao êxodo rural, ficavam perambulando pelas ruas. Eram considerados vagabundos. Muitos deles cometiam pequenos delitos para sobreviver e suportar o frio e a fome. O desemprego, a falta de escolas, a orfandade, a fome e o descaso das autoridades políticas eram, como hoje, a maior causa da delinquência juvenil. Por outro lado, era muito comum também, os adolescentes ajudarem a missa. Sobretudo, para responder as invocações em latim. Quando o menino falou que não sabia ajudar missa o sacristão não viu razão para ele estar ali na igreja e o expulsou.
Dom Bosco agiu justamente o contrário de Comotti. Deu atenção para o jovem. Quis saber de onde ele era. Desejou conhecer melhor a sua vida. Tratou-o com carinho. Deu atenção total. Valorizou os seus dons e ofereceu-lhe ajuda. Ganhou o seu coração e a sua confiança. Esse primeiro encontro de Dom Bosco com Garelli pode também nos ajudar como agentes vocacionais.
Percebamos primeiramente a figura do vocacionado, o jovem Garelli. Ele estava perdido. Talvez tenha entrado na sacristia sem saber onde estava. Estava procurando abrigo e comida. Em determinados períodos da vida, os vocacionados estão perdidos, desorientados, sem saber aonde ir e o que fazer. Buscam os mais diversos refúgios e nem sempre encontram abrigo e ajuda. Desejam ardentemente encontrar alguém que os orientem e os ajudem a encontrar o caminho.
Dom Bosco foi muito sensível. Percebeu a angústia daquele menino. Quis aproximar-se e fazer a diferença na sua vida. Interessou-se pela sua história. Parece uma atitude simples, mas não é. Naquela época ninguém se interessava pela vida de um menino abandonado e pobre. Ele só servia para ser explorado como gamine[1] ou para trabalhar arduamente na construção civil e nas fábricas, enfrentando até 18 horas de trabalho diário. O nosso santo fundador não tinha essa concepção. Sentia no coração o chamado para cuidar da juventude, sobretudo, da mais abandonada.
A sensibilidade de Dom Bosco e a sua capacidade de se dirigir com bondade para o Garelli nos ajudam a compreender o que é ser agente vocacional. O agente vocacional precisa cultivar em si uma grande sensibilidade para com o vocacionado. Precisa perceber os seus apelos e ser capaz de aproximar-se dele com bondade. A bondade gera confiança e a confiança gera transparência. A transparência, por sua vez, é fundamental para o discernimento.
Dom Bosco interessou-se pela história do vocacionado. Isso é fundamental. Cada um de nós tem uma história. A nossa vida, sobretudo a nossa infância, marca profundamente o nosso ser. Muitas atitudes que nós temos hoje são fruto de possíveis traumas vividos na infância. Valorizar a história do vocacionado é o primeiro passo para ajudá-lo a se conhecer melhor. Ninguém consegue responder verdadeiramente aos apelos de Deus se não se conhece profundamente. É importantíssimo o agente vocacional motivar o vocacionado a falar de si, da sua infância, do seu tempo de escola, da sua família. O acompanhamento vocacional deve mostrar um caminho que leva à liberdade. Muitas coisas da história pessoal do vocacionado o impedem de ser livre e de fazer opções concretas e definitivas na vida. Por isso, conhecer a história do vocacionado e o motivar a repensá-la é uma atitude importante do agente vocacional.
O processo de acompanhamento vocacional deve ser contínuo. Não deve ser interrompido no meio ou acontecer de forma esporádica. Dom Bosco mais uma vez nos ensina. Ele não quis que aquele diálogo inicial terminasse ali. Percebeu a sede que aquele jovem tinha de aprender. Marcou outros encontros. Abriu espaço para outros jovens também participarem. Quis fazer do encontro com Bartolomeu Garelli a oportunidade de encontrar-se com muitos outros jovens que, na mesma situação do primeiro, estavam também perdidos. Nesse caso aprendemos com Dom Bosco que o agente vocacional deve dar continuidade no processo de acompanhamento e precisa organizar momentos de encontro entre os vocacionados. O acompanhamento vocacional é muito exigente e sério. Não pode ser realizado num simples e rápido diálogo. Apesar de esse primeiro contato ser muito importante deve ser uma ação contínua e permanente até que o vocacionado seja capaz de caminhar sozinho e de tomar, conscientemente, uma decisão.
Em suma, a sensibilidade e a bondade, geradoras de confiança, precisam ser atitudes constantes de quem acompanha os vocacionados. O conhecimento da história deles e a continuidade do processo de acompanhamento devem nortear o trabalho do agente vocacional.

  1. Domingos Sávio: pela alegria, quebrar paradigmas, educar para a responsabilidade e promover o crescimento pessoal

No dia 02 de outubro de 1854, Dom Bosco encontrou Domingos Sávio. Aos 12 anos de idade ele tornou-se aluno do Oratório São Francisco de Sales.
Desde o princípio, Domingos mostrava-se muito disciplinado no estudo e nas práticas de piedade. Dom Bosco ficou impressionado com as suas virtudes. Ele não se aproximava dos colegas arruaceiros e com má-fama. Costumava praticar grandes penitências.
Dom Bosco, educador atento, observou durante um tempo a sua forma de se comportar. Certa vez o encontrou numa noite de inverno, deitado sem cobertor sobre a cama, tremendo de frio. Ao pedir para ele cobrir-se, pois senão contrairia uma pneumonia, ele teria dito: “Meu Senhor nasceu numa manjedoura em Belém, sem cobertor e não ficou doente. Por que eu ficaria?” Em outra ocasião, todos do oratório estavam muito preocupados com ele, pois, desaparecera durante todo o dia e não havia lugar onde não o tinham procurado. Então, por intuição, Dom Bosco o procurou e o encontrou de joelhos atrás do altar da igreja de São Francisco de Sales. Ele tinha ficado ali em jejum e de joelhos o dia todo. A sua intenção era tornar-se santo. A partir desse fato, depois de observar atento as suas atitudes, Dom Bosco interveio e começou a mostrar-lhe o caminho verdadeiro para a santidade.
Segundo o nosso fundador, a santidade consistia em cumprir bem com os deveres e em estar sempre alegre.  Dom Bosco apresentou para ele essa nova forma de encarar a vida. De nada adiantava grandes penitências. A vida precisava ser vivida de uma forma positiva. Não é machucando o corpo e afastando-se dos outros que uma pessoa se torna santa. A questão é assumir com responsabilidade a vida e cumprir corretamente os deveres. Cada pessoa deve irradiar a alegria e ajudar a mudar a vida das pessoas para melhor. Domingos Sávio aprendeu que deveria fazer o bem para seus colegas e que era sinal de esperança para eles. O seu testemunho de alegria e de fé ajudou no crescimento deles e os fez meninos melhores. Ele morreu na casa dos pais, no dia 09 de março de 1857, vítima de tifo, uma doença muito comum naquela época. Foi canonizado em 1954.
Mais uma vez Dom Bosco tem muito a nos ensinar no trabalho de agentes vocacionais. O agente vocacional, depois de observar os vocacionados, começa a ajudá-los a mudar de atitude diante da vida e da própria vocação. Muitas vezes aparecem vocacionados fechados, marcados por um tradicionalismo e uma piedade que mais os afastam de Deus e dos irmãos do que os aproximam.
No paradigma atual a alegria deve ser expressão profunda da nossa fé. Deus não quer pessoas tristes, cheias de mortificação e penitência. Deus quer homens e mulheres alegres, que cumprem bem as responsabilidades e que são apaixonadas pela “vida e pelo Senhor da vida”.
Havia a concepção de um Deus carrasco, que castigava as pessoas e as privava da liberdade. Além disso, muitas vezes, até hoje, algumas pessoas têm a imagem de Deus como um severo juiz que, sentado no Seu trono, vigia todas as nossas atitudes e está pronto para nos castigar (Cf. MARDONES, 2007, p. 98). Aparecem vocacionados assim. O agente vocacional não pode querer, de um dia para o outro, mudar a mentalidade do acompanhado, mas deve, aos poucos, ir mostrando esse outro lado da moeda, revelando a imagem de um Deus bondoso, alegre e, que acima de tudo, nos criou para a liberdade (CF. Gl 5, 1-13).
Por outro lado, aspectos psicológicos podem influenciar na experiência de fé. A vivência que o vocacionado teve com seus pais na infância e, sobretudo, o seu relacionamento com o pai ou substituto, pode criar no seu inconsciente a imagem de um Deus carrasco, castigador ou que é indiferente para com os seus filhos. Quem teve uma experiência negativa com o pai, provavelmente, terá muita dificuldade de chamar Deus de Pai (Cf. DEL-FRARO, 2009). O papel do agente vocacional é ajudar os vocacionados a fazer uma experiência profunda de Deus. Ajudá-los a mudar de paradigma e a enxergar Deus como aquele que nos criou por amor e nos fez protagonistas desse mundo, responsáveis por cuidar de toda a criação (Cf. Gn 1,29).
Uma decisão madura em relação à própria vocação só será possível quando o vocacionado conseguir fazer essa experiência de Deus. Deus, através da Sagrada Escritura e da história, se autocomunica, ou seja, se revela a todos (Cf. LIBÂNIO, p.17). Ele chama a todos. Mas, é preciso abertura e atenção à sua voz para saber o que, de fato, Ele quer de nós.
Em síntese, o agente vocacional ajuda o vocacionado a viver a fé e a vocação com alegria e a assumir com responsabilidade as tarefas cotidianas. Mas, o desafio maior para o agente vocacional é ajudar o vocacionado a fazer uma experiência do amor e da bondade de Deus e a assumir a vida e a vocação com plena liberdade.
  
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Dom Bosco foi, sem dúvida, grande agente vocacional. Ajudou muitos jovens a construir o projeto de vida. Homem de oração, refletia a bondade de Deus e a alegria da filiação divina. O seu jeito próximo e simpático, alegre e festivo, sério e responsável, ensinou os jovens do seu tempo a encarar a vida como dom de Deus e vocação a ser assumida.
A figura do agente vocacional, inspirada em Dom Bosco, é de fundamental importância no nosso tempo, pois,

“na atual conjuntura, tudo acontece muito rápido. Vivemos num frenesi assustador. Não conseguimos parar um instante para pensar nem para curtir a vida. O vaivém constante, a correria, o barulho ensurdecedor das grandes cidades, a rápida conexão com o mundo, a violência, o desemprego, somados à publicidade massacrante e ao bombardeio de informações, transformam profundamente o nosso mundo”. A parcela mais atingida por tantas mudanças são os jovens. Ricos de valores e de dons, são “bodes expiatórios” da contemporaneidade. São vulneráveis, pois são curiosos. Têm sede de saber e um forte desejo de conquistar novos espaços. São desbravadores do mundo. São construtores do futuro.
É comum a expressão “os jovens são o nosso futuro”. Sempre a ouvimos e repetimos. Porém nem sempre temos consciência da seriedade dessa afirmação. Olhamos para os jovens como a solução para o nosso mundo. Nós os percebemos como os nossos sucessores na “gestão” desse planeta complicado. No entanto, eles já estão aí. Vivem esperançosos, cheios de expectativas e de idéias novas. São portadores de grande energia e de muita vontade de viver. São alegres e transformam o ambiente onde estão.
É necessário, porém, cuidar desses jovens. Muitas dúvidas pairam nos seus corações. Inúmeras possibilidades são avistadas. Vários caminhos lhes são apresentados. É grande o desafio de ajudá-los a perceber os dons com os quais foram agraciados por Deus e a tomar rumos que, de fato, respondam ao chamado de Deus. Fazê-los compreender a vida como vocação e assumi-la como missão é uma necessidade urgente. (GUIMARÃES, Vida em Comunhão, 20/08/2010).


Queremos aprender com Dom Bosco a cuidar dos jovens. A ajudá-los a responder aos apelos de Deus.
O presente texto foi uma tentativa de ouvir os apelos dos jovens, de voltar às fontes, interpretá-las à luz dos sinais dos tempos e de partir para a ação: criar uma cultura vocacional em todos os ambientes salesianos, formar equipes e ir ao encontro dos jovens. Como fez Dom Bosco, faremos nós, cheios de esperança, fé em Deus e muita alegria.

 REFERÊNCIAS

BROCARDO, Pietro. Dom Bosco profundamente homem profundamente santo. São Paulo: Salesiana, 2005.  2. Ed. São Paulo: Salesiana, 2005. 310p.
BUCCELLATO, Giuseppe. Dom Bosco: notas para uma história espiritual de sala vida. São Paulo: Salesiana, 2009. 175p.
DEL-FRARO FILHO, José. Obstáculos ao amor e à fé: o amadurecimento humano e a espiritualidade cristã. São Paulo: Paulus, 2009. 153p.
GUIMARÃES, Adessandro José. Promover uma cultura vocacional: ajudar os jovens a construir o próprio projeto de vida é a meta principal de toda ação salesiana. Belo Horizonte: ISJB/Secretaria de Comunicação. Publicado no Informativo Vida em Comunhão, nº 15, 20/08/2010.
LEAL, Fernando Peraza Leal. Dom Bosco e o acompanhamento espiritual dos jovens. São Paulo: Salesiana, 2010. 167p.
LIBÂNIO, João Batista. Teologia da Revelação a partir da modernidade. 5.ed. São Paulo: Loyola, 2005. 474p.
MARDONES, José María. Matar a nuestros Dioses: um Dios para um creyente adulto. 4. Ed. Madri: PPC, 2007.
RODRÍGUEZ, Jaime. Sabedoria do Coração: a assistência salesiana. São Paulo: Salesiana, 2000. 276p.
SÃO JOÃO BOSCO. Memórias do Oratório de São Francisco de Sales. 3. ed. São Paulo: Salesiana, 2005. 250p.



[1] Limpador de Chaminés. Uma profissão muito comum entre os meninos italianos. Um trabalho difícil e nada valorizado.