Introduzindo, pode-se dizer que a vida humana é cheia de mistérios. Apesar da sua finitude é rica de surpresas. Nem todas as surpresas, porém, são agradáveis. Pode aparecer a dor, o sofrimento, a doença e a morte. São situações, às vezes, extremas que a humanidade tem que enfrentar.
A forma como as pessoas enfrentam estas situações varia muito de acordo com a cultura e o tempo em que vivem. Encaram o sofrimento de diversas maneiras. Algumas pessoas reagem de forma mais tranquila. Conseguem assimilar a situação e administrar satisfatória e serenamente as mais diversas tribulações. Outras pessoas, por sua vez, se revoltam contra Deus e se enxergam como castigadas. O povo do Primeiro Testamento, por exemplo, costumava entender o sofrimento e, sobretudo, a doença, como castigo de Deus.
Foi sendo criada no decorrer da história uma mentalidade um tanto quanto acomodada em relação ao sofrimento, à dor e à morte. Deus assim desejou e pronto! Não há mais nada a fazer. Foi Deus que quis. É muito comum ainda hoje, diante do sofrimento e, sobretudo, da morte, ouvir a expressão: “foi Deus que levou, então é preciso aceitar”. Afinal, chegou a hora. Desta forma, pode-se até imaginar que Deus tem um livro e nele está escrito tudo sobre o que vai acontecer com cada indivíduo no mundo. Afirmou-se no início do parágrafo que esta é uma visão acomodada em relação ao sofrimento e à morte. É acomodada porque isenta o ser humano de culpa. Esquece-se da finitude humana e coloca-se a culpa em Deus.
É importante distinguir que dor se refere às reações físico-químicas que ocorrem no organismo humano e animal. Têm a função de avisar que algo está errado no funcionamento do corpo. Essa dor gera, no ser humano, o sofrimento. Este, por sua vez, é uma situação psicológica de incômodo que gera ansiedade e angústia. A tendência é acabar com a dor o mais rápido possível para sanar o sofrimento.
O interessante aqui é fazer notar que à dor, ao sofrimento e à morte, sentidos variados são aplicados. Podem ser interpretados como autoproteção ou até uma forma de autoafirmação. Podem ser utilizados como fonte de prazer, no caso do sadomasoquismo (Cf. ROSSI, 2011, p.1). Outras pessoas podem dar um sentido totalmente positivo para a dor e para o sofrimento. Aprendem com o sofrimento. Crescem com ele. Utilizam dele para dar sentido às próprias vidas. O psicanalista austríaco Viktor Frankl criou a Logo Terapia, isto é, a terapia do sentido. Aqui é interessante citar o termo resiliência. É um conceito da psicologia que trata do indivíduo capaz de enfrentar a mais forte pressão e superar os mais difíceis obstáculos sem entrar num surto psicológico. Pode também ser entendido como a capacidade que a pessoa tem de tomar decisões rápidas em situações extremas.
Os termos acima trabalhados podem ajudar a compreender numa visão cristianizada a questão da dor, da morte e do sofrimento. Com a presença de Jesus no mundo, com a sua pregação e o seu testemunho, um novo rosto de Deus foi sendo percebido. O Deus da alegria, da bondade e do amor. Deus não criou o ser humano para sofrer. Nem para ser infeliz. Deus não é sádico. Ele é bondoso. Criou o ser humano com o livre arbítrio. Foi justamente essa liberdade que fez com que tantas coisas ruins fossem criadas. Delas surgem a dor e o sofrimento.
As atitudes de Jesus, mais do que simplesmente realizar a cura física, sanando a dor e o sofrimento, revelam um sentido muito mais profundo. Têm o objetivo de libertar integralmente a pessoa para que, pela fé, possa aderir ao projeto de Jesus. Visa à cura total, ou seja, à transformação do coração.
Jesus também sofreu. Sendo profundamente homem, passou pela dor e pelo sofrimento. Enfrentou a morte. Ficou morte três dias. Isto é, morreu mesmo! Nesta perspectiva, o sofrimento do cristão está em profunda comunhão com o Cristo Sofredor e o serviço aos doentes e aos sofredores remetem aos sofrimentos do próprio Cristo (Cf. Mt 25, 35-46).
Concluindo, é importante compreender que a ótica da esperança deve estar profundamente presente na vida dos cristãos. Tudo que Jesus disse e fez foi vislumbrando o horizonte da esperança. Este horizonte é o da Ressurreição, da conquista do Reino definitivo. O fato de Jesus ter ressuscitado é a certeza que a pessoa humana tem que também irá ressuscitar. Mesmo a cruz é sinal de grande esperança! A morte de Jesus abriu um horizonte pelo qual vale a pena passar pelas tribulações da vida. Mesmo que seja o sofrimento, a dor e a morte. A resiliência do cristão é Jesus. Ele dá a força para superar situações extremas sem cair. Ele é o sentido que se deve dar a tudo que acontece na vida.
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